Quinta-feira, Março 4

Up up up up up up in the air


Não sei até que ponto vai a paciência de um gajo mas desde que li que quem leva uma vida enfastiante está sujeito a morrer mais cedo renovei os arquivos. Talvez não os tenha renovado mas re-etiquetei alguns dos items colocando-os solenemente na prateleira sob a qual pende majestosamente uma tira de papel onde se pode ler "cagalhões". Não pende literalmente porque não sou indivíduo de deixar as coisas a pender, uma coisa que pende mexe-se quando vem vento e não há tormenta que abane a firme resolução que tomei algures no tempo que já lá vai de ser sempre fiel a mim próprio. Grande merda. Não faço a mínima ideia quem sou.
Retira-se daqui pelo menos ( e mais não houvesse) uma firme e derradeira vontade de viver. O que conta não é eu ter lido o artigo, é eu ter reagido ao artigo. "O artigo". Lá está. Sou "um daqueles gajos que lê artigos". Não foram estes os planos que fiz em 1985 quando, em plenas celebrações do meu décimo aniversário, jurei a mim próprio nunca me tornar "num daqueles gajos". Mas vejam lá bem esta merda: sou mais "um daqueles gajos" que qualquer " um daqueles gajos" alguma vez se aventurou a ser. Sem falsas modéstias ou hipocrisias de pacotilha. Sou o mais sedimentado e inconsequente dos seres humanos. Gosto de andar a pé. Já não existem pessoas que gostam de andar a pé. Quem é que tem tempo ou paciência para andar a pé nos dias que correm ? Há umas bolachas reles que se fabricam na Espanha que me põe tolo. Gosto de atum, de ver o Porto, de andar de fato de treino ao fim de semana , de ler o Público, de café a ferver, de pegar na minha sobrinha, Heineken, de estar sozinho, gosto tanto tanto de estar sozinho, gosto dos bancos que a câmara lá meteu para os turistas, o vento frio a açoitar as trombas (eu se mandasse ilegalizava os ginásios, andar a pé e sexo são os únicos exercícios nobres) e gosto de fumar encostado a qualquer coisa improvisada como se fosse um actor indie francês num filme estranho sobre a meia idade. Gosto disto tudo e de mais coisas ainda. Não é por falta de paixões que por vezes lá se solta um suspiro . Envergar as rugas como se fossem troféus, beber brandy, definhar arrogantemente, com Schubert a ribombar melancólico.
Nos bons filmes e nas boas vidas toca o despertador. Quando se acorda tem-se sempre má cara. Abominamos este dia e todos os dias iguais a este. Já nem sei se gosto de andar a pé , de Heineken, de ver o Porto, o Schubert era um paneleirote mimado. A Arte nunca faz sentido de manhã cedo, tudo aquilo que nos faz exultar à meia noite parece uma merda às oito da manhã. De manhã sabe bem ler o jornal. Um ácido de realidade que nos tira do limbo. À medida que o dia avança os ossos vão desencalhando e a cabeça começa a vomitar o real. É preciso sonhar.
Um gajo é fiel a ele próprio. Não pode fazer nada, não é uma escolha. Olha-se à volta e parece que pairamos sobre os outros, sobre os outros todos.