Mastros Classic
Post da antigo Mastros que versava sobre o facto de o FC Porto não ter um número nove em condições e o sofrimento de Jesualdo para encontrar uma solução táctica ( para quem não sabe é uma paródia a "Pi" o filme de Darren Aronovsky
NT. BALNEÁRIO VAZIO E FUMEGANTE- NOITE
O balneário ainda fumega depois de todos os jogadores terem dado banho. Pequenos atilhos e garrafas de plástico vazias ainda no chão. Jesualdo, 60 anos, acende um cigarro e encosta-se um pouco mais no banco ainda húmido onde Anderson se tinha equipado. Coça a cabeça e dá uma longa e gananciosa passa. Levanta-se e dirige-se para o quadro preto ainda com a táctica do intervalo. Jesualdo apaga o número 9. O número 9 volta a aparecer. Jesualdo apaga o número 9. O número 9 volta a aparecer. Jesualdo apaga o número 9 (até ao fim da cena)
Jesualdo (v.o)
Este sou, Jesualdo, encarregue-mor de uma equipa sem fim. Não sei se isto é matemática. Na Cabala é tudo matemática, J é 8, A é 5, R é 6, D é 4, E é 1 e L é 9. (pausa). Jardel é 33. 33 em hebreu é golo.
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INT. ESCRITÓRIO NO OLIVAL - MANHÃ
Jesualdo tecla furiosamente , sua com abundância e dita frenéticamente para um gravador de voz.
JESUALDO
8.53. A linguagem da natureza é a matemática. Tudo à nossa volta pode ser expresso numa equação. Da observação emergem padrões. O que é um 9 ? Um 1 adido a um 8 ? Helton + Lucho ?
8.57. Carregar enter. Possibilidade de obtenção de golos diminuta.
Jesualdo grita enquanto a cabeça ribomba. Pega no casaco e sai apressado.
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INT. CORREDOR NO OLIVAL - MANHÃ
Jesualdo caminha furiosamente, olhos desmaiados, lábios mexendo subtilmente como quem fala sozinho. Sem querer dá um encontrão no jovem Bruno Moraes.
BRUNO MORAES
Bom dia mister.
Jesualdo para e esboça um sorriso doente. Volta apressado ao escritório
INT. ESCRITÓRIO NO OLIVAL - MANHÃ
Jesualdo liga o computador e o gravador. Mal tem tempo de se sentar devidamente e já grita.
JESUALDO
9.12. A linguagem da natureza é a matemática. Tudo à nossa volta pode ser expresso numa equação. Da observação emergem padrões. O que é um 9 ? Dados estatísticos, anterior interesse de um colosso, juventude. Estruturar critérios de forma a contrabalançar eventuais danos no joelho.
9.14 Carregar ENTER.
O computador trabalha ruidosamente. No ecrã: Possibilidade de golos mediana. Jesualdo suspira, levanta-se, pega no casaco e sai apressado.
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EXT RELVADO NO OLIVAL - MANHÃ
Anderson, Quaresma e Vieirinha brincam com a bola, Raul Meireles ensaia a meia distância, Lucho troca passes com Ibson. Jesualdo senta-se no relvado e dita para o seu gravador.
JESUALDO
10.12 A linguagem da natureza é a matemática. Tudo à nossa volta pode ser expresso numa equação. Da observação emergem padrões. O que é um 9 ?
Postiga, Adriano, Bruno Moraes, Sokota e Lisandro passam à frente do deprimido treinador falando de miudezas. Anderson aproxima-se do mister.
ANDERSON
Mister ? 9 a dividir por onze ?
JESUALDO
uH ?
ANDERSON
Não sabi ? ( começa a dar toques na bola) A resposta é: zero ponto (toque na bola ) oito-um (toque na bola) oito-um (toque na bola) oito-um (toque na bola) oito-um (toque na bola) oito-um (toque na bola) oito-um (toque na bola)
oito-um (toque na bola) oito-um (toque na bola)
oito-um (toque na bola) oito-um (toque na bola)
oito-um (toque na bola) oito-um (toque na bola)
oito-um (toque na bola) oito-um (toque na bola)
oito-um (toque na bola) oito-um (toque na bola)
oito-um (toque na bola) oito-um (toque na bola)
oito-um (toque na bola) oito-um (toque na bola)
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EXT. ESTÁDIO DO BRAGA - NOITE
O placar assinala Braga 0 Porto 4. Jesualdo pega no gravador.
JESUALDO
22.32 A linguagem da natureza é a matemática. Tudo à nossa volta pode ser expresso numa equação. Da observação emergem padrões. O que é um 9 ?
Jesualdo desliga o gravador e sorri pela primeira vez desde há muito tempo. A bancada solta um grito, 5-0. Anderson corre para abraçar o mister.
Uma das entradas do Diário de Gracindo Peres
Meu nome é Gracindo Peres e sou um homem revoltado. Acabei de passar os olhos pelo ensaio de Camus ( Camus!!!!! Ca-MUS!!!!, não é Camões!!!) e entendo na perfeição o conceito do absurdo. Também eu sou absurdo, revoltado, intelectual de cachimbo. Fiquei com a impressão que o gajo não gostou lá muito do Marquês de Sade. Mas eu gosto. Também eu torturo constantemente coisas que se mexem incluindo a minha mãe que está neste momento em amena cavaqueira com a vizinha enquanto eu peno neste mundo atroz e cruel. Como me flagelam estes pensamentos absurdos, como me falta a paz prometida pelo desinteresse, questiono-me, seria eu capaz de matar alguém ? A resposta é muito clara e muito simples: se as circunstâncias se proporcionassem e se a vítima não fosse ninguém conhecido e se não tivesse à posteriori de me livrar do corpo e se a pessoa não morresse efectivamente mas apenas ficasse ligeiramente morta e se os entes queridos não fossem sentir muito a falta da vítima e se pudesse voltar atrás caso me arrependesse e me devolvessem o sinal, aí sim, não teria dúvidas, fá-lo-ia. Fár-lo-ia. Faría-lo.

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