Taxi Driver (1976) Martin Scorsese
Deita uma pastilha efervescente num copo de água e a sua atenção fixa-se naquele redemoinho agressivo de partículas que parecem mexer-se só para viver, caoticamente, sem propósito, sem Deus, sem amor, sem misericórdia, apenas o latejar disforme e cruel da sobrevivência. Bickle fervilha.
Porque será Travis assim? Sabemos que serviu no Vietname, sabemos que não dorme à noite, parecemos saber que o remorso lhe encolhe a destreza emocional. Há um passado doente no amanhã de Bickle, um passado que agoniza mas não morre e o impede de viver hoje. Enfeitiça-se por uma jovem bonita que trabalha no departamento de campanha de um candidato a candidato a presidente dos Estados Unidos. Uma mulher perfeita, escultural, inteligente, emocionalmente estável. Travis não ama aquela estatueta simétrica mas julga-se merecedor dela. Da sua incapacidade de amar Bickle faz uma caça ao tesouro. Omnipresente na obra de Scorsese está este pulsar de testosterona, esta violência latente que é menos física que emocional. As mulheres em Scorsese não sendo uni-dimensionais ou artefactos narrativos utilitários estão presentes apenas em aura, como um desafio aos homens, como um contraste à milenar presença, estoica, imponente, do alpha-male que dita e conduz os destinos da Humanidade. Não creio que Bickle seja capaz de amar sem sofreguidão, sem desfrutar de um qualquer doentio sentimento de posse. Tenta cativar o objecto da sua paixão chafurdando-a nas noites de pornografia sueca que lhe aliviam o vazio. Ela fica chocada. "We´re just different". Comprou-lhe o disco favorito mas esqueceu-se de lhe perguntar o sobrenome. Ela vai-se, para sempre, num táxi. Travis telefona-lhe mas ela evita-o. Irrompe pela sede de campanha dentro metralhando agressivamente" you´re just like all the others!!!". Queria alguém que lhe fizesse companhia nas sessões de pornografia educativa, alguém como ele, alguém magoado, danificado, desencantado, alguém que não tivesse nojo dele, que o elogiasse, que o endeusasse. É aí que reside o fundamental da condição de Travis Bickle. A não aceitação por parte do resto do mundo, o nojo que ele tem dele próprio, essa necessidade de pertença, de reconhecimento, de elevação mística a um patamar superior, só o resto do mundo de joelhos admitindo quão enganados estavam todos, só essa redenção apoteótica, esse correr de cortina épico cheio de sopros marciais, só algo de verdadeiramente grandioso pode sarar a ferida de um passado que queima sem nunca ficar suficientemente para trás.Bickle não tem coragem para procurar a redenção onde ela se encontra sempre. No amor. Bickle não sabe amar, não sabe deixar que alguém o ame. Neste vazio os "dias correm, todos iguais". A rejeição da mulher que julgava amar, da mulher que julgava ser um oásis de pureza e bem num mundo de sombras e esgotos rouba-lhe a última réstia de luz. Agora não há mais nada. Mas mostrar a essa mulher que ele é capaz, verdadeiramente capaz, de ser tudo aquilo que ele pensa poder ser (mesmo não sabendo bem o quê) afigura-se como a salvação doce em contraponto a uma redenção dietética que demoraria demasiado tempo. Atolado no desgosto e no vazio Bickle engendra o seu plano, a sua impressão digital nos dias que correm todos iguais. Vê novelas atrás de novelas mas chega ao ponto em que a dormência maternal da ficção não o tira deste mundo apenas o faz lembrar-se dele com cores mais vivas. Balança a televisão lentamente até que a gravidade a faz estourar violentamente no chão. Menos um artefacto falso para untar de amor o cinzento do quotidiano. "Godamn, Godamn".
Mas o que a condição humana tem de mais extraordinário e comovente é esta capacidade para continuar a caminhar em frente no meio das silvas. Arranhado pela crueldade de tudo e todos, pela assombrosa falta de propósito com que se depara em todos os momentos da sua vida Bickle procura uma última e desesperada tentativa de absolvição. Ao tentar libertar uma muito jovem prostituta das garras de um chulo desumano Travis tenta desenterrar de dentro de si mesmo aquele último resquício de humanidade e pertença que julga poder ser ainda a tábua de salvação que procura qual Sísifo abnegado.
A incapacidade de Bickle em empreender o seu plano de matar o candidato não é inocente. Bickle corta o cabelo em forma de crista e monologa desvairadamente em frente ao espelho. Sendo "o maior" no seu quarto Travis é também o maior do mundo mais não seja durante os segundos em que, de olhar brilhante e feições ameaçadoras pronuncia suavemente a eterna linha "are you talking to me?" em frente ao espelho como se o espelho fosse a humanidade toda subitamente transformada em assistência privilegiada da sua ascenção poética ao reino dos Deuses. A vida cá fora exige de Bickle mais do que ameaças ensaiadas e esgares maniqueístas de superioridade. Bickle foge como um cãozinho assustado e não chega nunca a inscrever-se eternamente na memória da rapariga bonita. Essa inscrição seria troféu suficiente e todas as agruras do amanhã seriam compensadas pelo sono recompensador da consciência vitoriosa.
Faço parte daqueles que julga que a brutal e inesquecível cena final de "Taxi Driver" mais não é do que um delírio febril e rancoroso de Bickle. Não julgo que Bickle tenha entrado a matar no prédio que albergava a prostituta adolescente. Travis não matou toda a gente e mais alguém. A imprensa e o mundo não absolveram Travis Bickle de uma série de assassinatos vigilantes, nem a jovem prostituta voltou para a casa de província dos pais para acabar os estudos. A psique de Travis engendrou este plano de auto-defesa e o facto de ele acreditar ou não nele é quase irrelevante. Travis vive apaziguado porque em sonhos mata, em sonhos é Deus,enquanto sonhar o mundo voltará a ser tão submisso como aquele espelho foi durante meses, aquele espelho que nunca lhe respondia nem nunca o questionava. A mulher bonita esquecer-se-á de Travis Bickle mais cedo ou mais tarde pois ele é,de facto, de uma maneira sórdida dispensável e comum. Mas nos sonhos de Bickle ela aparecerá todas as noites para uma viagem de táxi tardia. Elogiará com lascívia e erotismo provocador os seus feitos e Travis responderá como o galã despreocupado e dominador que tão desesperadamente deseja ser. Nem sequer lhe cobra a viagem. Desaparece no horizonte tão misteriosamente como um Gary Cooper da classe operária. Travis terá sempre tendência a olhar pelo retrovisor e compreender quão ténues são os alicerces que fundamentam a sua fantasia. Esses momentos são repentinos e assustadores mas durante algum tempo Travis Bickle continuará a percorrer as ruas nocturnas de Nova Iorque sem que o mundo lhe pareça insuportável. Da mesma maneira que Camus dizia que "é preciso imaginar Sísifo feliz" também nós temos de acreditar que Travis Bickle encontrará alguém que goste de pornografia sueca para que empurrar a bola até ao cimo do monte não seja inútil
Tarantino sobre Taxi Driver.
Deixei de fora do meu texto a vertente racista do personagem porque não acredito sinceramente que Travis Bickle seja racista. Apesar de Scorsese dar nitidamente a entender que Bickle tem uma certa repulsa por indivíduos negros essa repulsa é mais baseada num ódio fácil ao bode expiatório que está mais à mão do que a uma etnia em particular. O ódio de Bickle transcende o ódio racial e, em termos de estrutura narrativa, servirá somente para alertar o espectador para o facto de Bickle estar predisposto a odiar sem obedecer a qualquer critério racional. É a minha opinião. Escutem no entanto Quentin Tarantino que tem algo bem interessante a dizer sobre este e outros aspectos desta obra-prima.


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