Quarta-feira, Janeiro 27

one big glass eye

Já sei que o Bill Callahan vem a Santa Maria da Feira algures no final de Fevereiro. Nunca vi o gajo tocar ao vivo e acho que é mais importante vê-lo e ouvi-lo pelo menos uma vez na vida do que mariquices como fazer bungee jumping ou ser feliz. Em 1995 comprei na Jo-Jo´s o Wild Love e posso dizer que antes de ouvir aquela merda pensei que as letras das canções pop fossem feitas pelo Willy Wonka. Tinha eu os meus oito anos e delirava a ouvir Scorpions, praticava "air guitar" estiloso enquanto guinchava "Aaaaaiiiiiiiii stiiiii looooooo binuuuuuuuuuu". Mesmo com o Nevermind as coisas não deixaram de se passar de forma similar. Estava tão concentrado nas guitarras que não me importava com o que o Cobain pudesse estar a estrebuchar. Era-me indiferente. E, sejamos sinceros: a mosquito, my libido, an albino, a mulato? Parece alguém a tentar aprender albanês. Não interessava. Um gajo decalcava foneticamente e se a coisa soasse zangada era automaticamente bom. Quando ouvi o Wild Love fiquei às portas da meteorização. Divaguei por galáxias diferentes e distantes e fiz aquilo que qualquer jovem deve fazer de dois em dois anos e que é pegar nos discos que tem e manda-los todos para o lixo. Que me interessava agora os merdinhas caganéfilos com as suas rimas que envergonhariam o Forrest Gump quando à volta dos meus ouvidos feridos soava enfim a sinfonia que tão sofregamente buscara? É que até o próprio alinhamento do disco deixa um gajo às portas de um ataque de trevos. Começa com uma bomba perfeita de auto comiseração freudiana e é seguido por cinco pequenas vinhetas de auto-desdém e vómito educado. Prossegue com uma cantoria sobre não ser capaz de ajudar os amigos, encarreira com um estudo doente sobre o ciume, desliza para qualquer coisa sobre a masturbação feminina, queixa-se que as mulheres só gostam dele quando lhes bate, faz uma sinfonia à solidão do Prince e, quando parece que está a entrar em velocidade de cruzeiro, manda foder a paixão porque o apartamento é pequeno e ela vigia tudo o que ele come. Passados trinta e cinco minutos toda a outra música que existe no mundo parece inconsequente e desnecessária. Mas o mais preocupante é que, se for sincero, é muito triste este ser o meu disco favorito. Semelhante tratado de miséria e gozo miudinho nunca eu tinha visto na vida. Este disco ser o meu favorito faz de mim uma das cem piores pessoas que jamais existiram. Porque nem o próprio Billinho deve gostar tanto do disco como eu. ESTE-DISCO-NÃO-É-O-DISCO-FAVORITO-DE-NINGUÉM-EM- CONDIÇÕES. Muito eu gostava que o meu disco favorito fosse uma merda qualquer dos Ac-Dc ou dos Smiths. Esse é o tipo de bandas que produzem os discos favoritos das pessoas que são boas pessoas e que ás vezes até vão à missa. Eu sou um freak.